quarta-feira, 20 de maio de 2009

Movimentos sociais reivindicam secretarias de reparação e promoção da igualdade racial

foto: Luiz Zagra




Plenária da conferência regional da Borborema

A criação de secretarias municipais e estadual visando ações e políticas públicas de reparação e de promoção da igualdade racial será uma das principais reivindicações do movimento social composto por entidades não-governamentais defensoras das causas de segmentos da população negra, indígena e cigana da Paraíba, na segunda edição da Conferência Estadual que ocorre nos próximos sábado e domingo (23 e 24/05), no Centro de Treinamento da Polícia Militar, no bairro de Mangabeira, em João Pessoa. Segundo os últimos dados do IBGE, 63,9% são pretos e pardos na Paraíba.

O evento é uma promoção do Governo da Paraíba, através da Secretaria de Desenvolvimento Social e Humano, com apoio da Secretaria de Cidadania e Administração Penitenciária, e teve duas etapas regionais preparatórias em Campina Grande e João Pessoa, sendo essa última realizada sábado passado (16/05) no auditório central do Unipê.

“Não tenhamos medo de expressar nossas diferenças. É preciso garantir um foco estratégico, na busca por uma sociedade justa e igualitária. Desenvolvimento humano passa pelo processo de organização da sociedade”, disse Gilcélia Figueiredo, na etapa regional de Campina Grande, que reuniu lideranças da Borborema, Cariri, Sertão e Curimataú. A titular da SDSH reconhece que o estado pouco avançou nas políticas públicas para as comunidades indígenas, quilombolas, ciganas e demais segmentos étnico-raciais. “Mas nós estamos dispostos a mudar essa realidade”, garante Figueiredo.

A Conferência regional de Campina Grande reuniu ativistas de Picuí, Catolé do Rocha, Sumé, Pombal, Riacho de Santo Antônio e Puxinanã, além de observadores de João Pessoa e Conde.

Outro que reconheceu publicamente a ausência de políticas públicas nessa área foi o assessor Josenilton Feitosa da SDSH. “Hoje não temos na Paraíba nem política de governos, nem política de Estado para a questão da igualdade racial”. Já o deputado Rodrigo Soares (PT), que acompanha a discussão afirma que o Estado e a sociedade possui uma dívida histórica com os cidadãos afro-paraibanos.

O professor do NEABI (UEPB), Benjamin propõe o resgate dos heróis negros locais. “Em Campina Grande, as ruas com nomes de países africanos estão, coincidentemente, em bairros deprimidos socialmente”, lembra. O núcleo coordenado por Benjamin, está promovendo curso de especialização, com foco em história e cultura da África.


Nossos quilombos

Segundo Francimar Fernandes de Sousa, da Associação de Apoio às Comunidades Afrodescendentes da Paraíba (AACADE), “o Estado nada fez pelo auto-reconhecimento dessas comunidades. Na verdade o poder público ignora essa luta”. Segundo a ativista, na Paraíba, os conflitos de terras quilombolas envolve usineiros, juízes e desembargadores.

A Paraíba possui atualmente 28 territórios quilombolas reconhecidos pelo INCRA, dum total de 35 comunidades tradicionais organizadas. A regularização fundiária dos antigos quilombos foi preconizada pela Assembléia Constituinte de 1988. Até o ano passado o Governo Federal havia identificado 3.524 comunidades remanescentes de quilombos. Em 2007 foi criada a Agência Social Quilombola (ASQ), incumbida de prover a regulação fundiária, eletrificação, recuperação ambiental, desenvolvimento local, e ações em educação e saúde nesses territórios.




O eixo Saúde

Em relação às comunidades rurais indígenas e quilombolas, foram enfatizadas a dificuldade de transporte e acesso e a demanda por Programas de Saúde da Família, em acordo com as especificidades das comunidades. A idéia é fortalecer e garantir o Sistema Único de Saúde, SUS, e o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, promovendo, entre outras ações, aumento orçamentário e destinando recursos específicos para ações relativas às populações negras, indígenas, cigana e a outras etnias, com vistas a tornar os serviços públicos de saúde e assistência social efetivamente universais para toda a sociedade e fazer valer o princípio da eqüidade.


“O mais urgente seria efetivar a política de atenção à saúde da população negra, no pacto de gestão, dando ênfase às mulheres negras, aos jovens institucionalizados e ao sistema penitenciário”, diz o jornalista Dalmo Oliveira, da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH). “A nossa intenção é a de promover a progressiva redução das diferenças nas esperanças de vida dos grupos raciais da população na Paraíba”, ressalta.

Outra demanda posta pelos movimentos sociais é promover a demarcação das terras dos povos indígenas e quilombolas como uma forma de sobrevivência de sua cultura e como meio de combater doenças de maior prevalência, com ocorrências por vezes associadas à ausência de políticas públicas específicas, a exemplo da doença falciforme.

Outra sugestão surgida foi a de antecipar detecção da doença falciforme já na 1ª fase do teste do pezinho, nos estados com dificuldade de implantação da segunda fase. A implantação de programas especiais de atenção às pessoas com a doença falciforme também está sendo reivindicada pelas organizações que representam os portadores paraibanos.

Reivindicam também centros de referência para atenção a casos de violência no SUS, com a inclusão das diferentes formas de violência vividas pela população negra, pelas lésbicas e mulheres que fazem sexo com mulheres, profissionais do sexo, pessoas portadoras de deficiência e necessidades especiais e mulheres em situação de aborto e abortamento incompleto. “Além medidas urgentes de enfrentamento ao racismo institucional em todos os programas e ações voltados para atenção aos agravos de saúde da população negra”, acrescenta Oliveira.

“Outra medida que queremos garantir o mais rápido são as ações preventivas para acabar com a desnutrição infantil nas aldeias, quilombos, acampamentos e em áreas de comunidades carentes, assim como a distribuição regular da farmácia básica, com acesso rápido a medicamentos especiais nas comunidades indígenas e remanescentes dos quilombos”, comenta o historiador Waldeci Ferreira Chagas, do Fórum de Educadores Negros.

A conferência do Litoral apontou ainda ações do poder público para a humanização para tratamento mental e a implantação de templos ecumênicos nas empresas e repartições do serviço público municipal e estadual. “Seria interessante a produção de campanhas especiais em saúde mental, usando cordel e outros meios alternativos”, propõe o psicólogo Hélio Pacheco. Representantes das religiões afro-brasileiras defendem o uso da mitologia africana e indígena para campanhas de saúde em casas das religiões de matriz africana. E capacitação para esse tipo de campanha. Para Antonio Novais, é preciso garantir a regionalização das campanhas de saúde. “As campanhas publicitárias nacionais não refletem as realidades regionais e locais”, lembra.

PMJP não avança na questão racial

Em 2005, ainda sobre a liderança de João Balula, foi realizado em João Pessoa o seminário O Negro e o Poder. “O resultado daquele seminário poderia ter sido melhor se, em vez de uma Assessoria da Diversidade Humana, tivéssemos avançado para a criação de um instrumento capaz de lidar com todas as políticas propostas no documento de políticas publicas para o povo negro entregue pelo Movimento Negro ao poder público municipal e ao prefeito Ricardo Coutinho naquele momento”, avalia Antônio Novaes, da ONG Irê.

“Aquele ano, a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Promoção de Igualdade Racial, esteve em João Pessoa para participar da 1ª Conferência Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, e juntamente com o prefeito Ricardo Coutinho, com lideranças do movimento negro sugeriu ao referido gestor a implantação de políticas públicas para o povo negro da cidade de João Pessoa”, lembra o ativista.

Para o movimento negro da Capital, uma Assessoria da Diversidade Humana sem poder de propor políticas públicas não atende aos anseios históricos da população afro-paraibana. “O programa Empreender-JP, criado na gestão de Ricardo Coutinho, não traz o recorte racial, não se têm programas de saúde específicas para a população negra; apesar de se ter elaborado as Diretrizes Municipais da Lei 10.639/03 (atual 11.645/08) e da sua aprovação pelo Conselho Municipal de Educação, ainda não se implantou com qualidade a referida Lei, pois as escolas não receberam material didático adequado”, comenta a pesquisadora Solange Rocha, da ONG Bamidele, que atua junto a mulheres negras na cidade

Ela lembra que a prefeitura também não implantou o sistema de cotas que prevêem a contração de 20% para negros, concursados e comissionados previstos pelo Decreto Lei 4.228/02. “Não existe uma proposta de valorização da cultura dos povos negro e índio no nosso município”, reclamam ainda os ativistas que estão na organização da Conferência pelo controle social.



terça-feira, 5 de maio de 2009

CAMPINA GRANDE RECEBE PRIMEIRA CONFERÊNCIA REGIONAL PARA DISCUTIR QUESTÃO RACIAL




A cidade de Campina Grande realiza no próximo sábado, dia 9, a Conferência Regional da Borborema de Promoção da Igualdade Racial, abrangendo as Regiões do Curimatau, Cariri e Sertão. O evento acontece a partir das 9h no auditório do Colégio Damas, no centro e é a primeira etapa preparatória para a II Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial, que acontece nos dias 23 e 24 de maio de 2009, no Centro de Formação da Polícia Militar, localizado em Mangabeira, em João Pessoa, sob a coordenação da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano (SEDH).

As Conferências regionais e estadual tem por objetivo analisar e repactuar os princípios e diretrizes aprovados na I Conferência Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Os participantes devem também avaliar as diretrizes para a implementação do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

Durante as plenárias, representantes dos segmentos sociais devem apresentar propostas de alteração do conteúdo do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial e da sua forma de execução. “Deveremos redefinir diretrizes que possibilitem o fortalecimento das políticas de promoção da igualdade racial, na perspectiva de superação das desigualdades raciais ainda existentes”, diz Solange Rocha, da comissão organizadora.

A II Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial terá como tema central: “Avanços, desafios e perspectivas da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial”. Os conferencistas deverão fazer ainda a análise da realidade brasileira a partir da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

Os eventos servirão também para medir o impacto das políticas de igualdade racial implementadas pelos entes federativos a partir dos eixos temáticos: Educação, Saúde, Trabalho, Segurança e Terra. “Está sendo proposto um exercício de compartilhamento da agenda nacional com o Plano de Ação de Durban”, diz Rocha.

Outra discussão será a gestão pública, participação e controle social: compartilhando o poder de decisão.

No dia 16 de maio ocorre em João Pessoa a Conferência Regional Litoral de Promoção da Igualdade Racial, abrangendo o Litoral Sul e Norte, como também as Regiões do Brejo e Agreste. As conferências regionais são preparatórias para a Conferência Nacional, que acontece em Brasília (DF) no período de 25 a 28 de junho, sob a coordenação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República e do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial.