terça-feira, 24 de maio de 2011

Abdias: menos um herói negro brasileiro

Abdias: 97 anos de negritude consciente
Falecido nesta terça, Abdias do Nascimento entra para a história moderna brasileira como mais um grande herói negro nacional. É um dos últimos intelectuais afrodescendentes que contribuiu de forma decisiva para a elevação da autoestima e do orgulho negro no Brasil. Agiu politicamente, mas ampliou sua influência e seu pensamento para as artes, especialmente o teatro e as artes plásticas.
Fundador da Frente Negra Brasileira e do Partido Trabalhista Brasileiro, Nascimento, que nasceu em Franca (SP), mas viveu mesmo no Rio de Janeiro, deu uma contribuição indiscutível ao teatro brasileiro, ao inventar o "Teatro Experimental do Negro".
A cultura negra brasileira não terá condições de gerar outro Abdias.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Enquanto maio não acaba

por Dalmo Oliveira*

O mês de maio é especial para todos os afrodescendentes brasileiros e para a sociedade nacional, de maneira geral. Nesse mês, no dia 13, em 1888, a Lei Áurea é aprovada na Assembléia Nacional, no Rio de Janeiro. Mas depois de 123 anos, o que o mês da abolição da escravatura brasileira significa para nós agora?
Na Paraíba, especialmente, a data tem sido esquecida paulatinamente, inclusive pelos movimentos sociais ligados à luta anti-racista. Há quase um ano, membros de um recém-criado Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial tomaram posse formalmente para um mandato que, até o momento não conseguiu sair do papel.
A não efetividade do CEPIR-PB revela a nuance de uma moderna modalidade de racismo, o institucional. O descaso do Poder Público estadual com o fomento das políticas públicas de promoção da igualdade racial na Paraíba demonstra, inequivocamente, que a nova gestão não prioriza ações de reparação para com os grupos sociais vilipendiados no processo civilizatório brasileiro e paraibano.
Esse posicionamento do Estado paraibano talvez explique, em parte, o fato de sermos o estado da Federação onde mais se matam jovens negros na faixa dos 14 aos 29 anos. Uma realidade que é considerada pelos grupos de ativistas da juventude afroparaibana como uma prática velada de uma modalidade cruel de extermínio étnico-racial.
Nesse maio os paraibanos que descendem dos africanos devem lamentar ainda a continuidade do racismo institucional na área da saúde, já que as principais mazelas que atingem preferencialmente a comunidade afroparaibana, como a doença falciforme, continuam sendo negligenciadas pelo sistema público de saúde.
As 24 comunidades quilombolas na Paraíba continuam esperando o que diversos governos prometeram e até agora não cumpriram: terra e condições para sobreviver dela; saúde; educação; trabalho e o mínimo de dignidade para a condição humana nessas comunidades rurais e semi-urbanas.
Enquanto maio não finda, esperamos uma nova abolição. Mas não uma abolição doada, emprestada, homologada. Seremos autores e donos da nossa libertação, a partir do momento em que entendamos nosso papel na construção de uma cidadania multi-etnica, plurirracial.
Onde abolir signifique construir e liberdade signifique vida digna com fraternidade, igualitarismo, respeito e ajuda mútua. 
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*Dalmo Oliveira é jornalista, coordenador da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH) e da Federação Nacional de Associações de Pessoas com Doenças Falciformes (FENAFAL)