Domingo, 26 de Abril de 2009
Quilombolas conquistam direitos
“Guerreiras” negras. Elas estão na contramão da história, vencendo o duplo preconceito de sexo e raça, desafiando barreiras sociais e conquistando seu lugar na sociedade. Após passar anos sendo invisíveis, negras mulheres são exemplo de superação, talento e beleza na Paraíba. Elas são professoras, doutoras, historiadoras, jornalistas, assistentes sociais, advogadas, artesãs, donas-de-casa ou vendedoras de frutas.
Mas suas histórias de vida se cruzam pela perseverança. Se um dia fugiram da escravidão e se refugiaram nos quilombos, hoje lutam pelos seus direitos e para não continuarem “reféns” da baixa escolaridade e da baixa condição socioeconômica. A educação é apontada como uma espécie de “carta de alforria” para que afrodescendentes possam romper o ciclo de pobreza que afeta comunidades negras paraibanas.
Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 63,3% da população da Paraíba é formada por negros e pardos. Apesar do alto percentual, muitos paraibanos não se declaram e nem se aceitam, como afrodescendentes, segundo a Bamidelê, Organização Não-Governamental de mulheres negras na Paraíba. Para discutir essas questões, acontecerá no próximo dia 2 de maio, em João Pessoa, a 2ª Conferência Regional de Políticas Públicas para a Igualdade Racial. O evento será realizado no Centro Administrativo Municipal da Prefeitura.
“Ser negra não é fácil. Enfrentamos o duplo preconceito. Se assumir negro é dar a cara a tapas. Socialmente, nunca tivemos espaço e fomos sempre tratados como inferior. Mas temos direitos e queremos viver dignamente”, afirmou a assistente social Terlúcia Silva, coordenadora executiva da Bamidelê, ONG que trabalha com foco em educação e saúde e desenvolve projetos em comunidades quilombolas do Estado. “As pessoas na Paraíba não se aceitam como negras. Nosso trabalho é justamente trabalhar o resgate da auto-estima”, completa.
Segundo o Unicef, uma criança filha de mãe sem instrução ou com menos de um ano de estudo tem seis vezes mais risco de ser pobre do que crianças, filhas de mães com 11 anos ou mais de estudo, e jovens negros têm duas vezes mais chances de serem pobres do que os brancos. “As mulheres negras estão na base da pirâmide social. Existem avanços, mas ainda estamos lutando por espaços em todas as áreas da sociedade. E a educação é a forma de acelerar esse processo e completar esses espaços no topo da pirâmide”, acrescentou Terlúcia Silva.
Professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisadora, Solange Rocha estuda, há 10 anos, a população negra no Estado. Ela disse que entende o comportamento dos quilombolas em não aceitar a sua história, porque o racismo no País ainda é muito forte.
Mas ela disse que a sociedade precisa primeiro assumir a sua identidade negra para poder discutir problemas e políticas públicas de inclusão social. “O racismo na Paraíba é extremamente camuflado. Se você não assume sua condição, não pode tratar do problema. Temos uma sociedade que não se reconhece e nem valoriza essa questão. É preciso trabalhar e discutir isso nas escolas”, comentou a historiadora.
Agarrando as oportunidades
Talentosas, paraibanas afrodescendentes se agarram hoje às oportunidades e se refugiam nos seus sonhos, sempre guiadas pelo ideal de luta e resistência. Para elas, a “liberdade plena” ainda não foi conquistada pelo País. Para a jovem Dayse Euzébio, primeira fotógrafa mulher e negra do Correio, o Brasil só será totalmente livre quando vencer o preconceito e assegurar direitos, como educação, saúde, segurança e moradia a todos os cidadãos, independente da raça, do sexo e da condição social. Já Edilene da Silva Santos, 24 anos, integrante da Bamidelê, também se orgulha da sua raça e aposta na educação como “trunfo”. “Além de secretária da ONG, sou estudante de Pedagogia”, revela.
Filha de descendente de ex-escravo na Paraíba e de professora, a paraibana Joselita de Oliveira Tessarotto, mestre em Direito e ex-professora da UFPB, é uma dessas mulheres que se agarrou às oportunidades e venceu. Ela acredita que é através da educação que se conseguirá vencer o preconceito e romper o ciclo de pobreza imposto às comunidades negras durante décadas. Analista judiciária e funcionária da Justiça do Trabalho no Estado, Joselita é a única negra do seu setor. Ela contou que já foi vítima de preconceito racial e prestou queixa na polícia três vezes.
“As relações entre brancos e negros no Brasil ainda são muito conflituosas. E essa questão é mais complicada pela negação do preconceito. A questão da negritude é um processo declaratório. Você tem que se autoafirmar como negro e enfrentar o preconceito, mesmo quando a sociedade tenta negar que ele existe”, afirmou Joselita.
Ela contou que toda sua formação foi em escola pública, da alfabetização à pós-graduação. “Todo instante, me deparei com situações de preconceito. Mas a educação é uma meta que jamais podemos largar e a formação tem que ser permanente”, ressalta. Mãe de Marco Antônio, 25 anos e Thaís, 21, Joselita disse que é importante estudar e acreditar na democracia, incentivando os filhos a ler. “Podemos construir um País melhor”, afirma.
PB tem 33 comunidades
A Paraíba já tem pelo menos 33 comunidades remanescentes de quilombos, sendo 25 reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura, e oito em processo de reconhecimento, de acordo com a Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes do Estado (Aacade-PB). Embora reconhecidas no papel, ainda há muito o que conquistar.
O integrante da Aacade, Luiz Zagra, disse que as comunidades lutam pelo resgate da identidade cultural e pelos seus direitos à terra. Se antes, os negros lutavam contra a escravidão dos senhores de engenho e das senzalas. Hoje, comunidades quilombolas são escravizadas pela pobreza e baixa escolaridade.
“A pobreza em todos os níveis - imposta pela história de dominação e negação de direitos dos negros - é uma forma de escravidão hoje vivida por essas comunidades”, afirmou Zagra.
A Comunidade Quilombola de Paratibe, localizada em João Pessoa, foi reconhecida em 2007, pela Fundação Palmares e tem 130 famílias. Líder da comunidade, Joseane Pereira da Silva Santos, 33 anos, disse que o primeiro passo foi dado para que essas famílias tenham seu território demarcado e sua identidade cultural e história resgatadas.
João Pedro da Silva 69 anos, é hoje o quilombola mais velho da comunidade de Paratibe. “Nasci e me criei aqui. Mas já esqueci minha história”, revelou. Da união com Joanita Maria da Conceição, 59 anos, nasceram 14 filhos, alguns de olhos verdes e azuis, fato interessante que chama a atenção no local. O casal e os outros quilombolas não sabem explicar a miscigenação da comunidade, formada por mulatos de altura acima da mediana e tonalidade forte.
A jovem quilombola Simone Pedro da Silva, 23 anos, filha de João Pedro e Joanita é um retrato fiel dessa miscigenação. Vaidosa, Simone tem olhos verdes e muitos sonhos. “Faço a 8ª série. Meu negócio é estudar e entrar na Polícia. Mas antes, sonho em viajar para conhecer outros Estados e outros países”, revelou Simone, que divide seu tempo entre estudar e vender frutas com a mãe. “Dizem que sou metida. Mas me orgulho de ser negra e não vou desistir de lutar pelos meus sonhos”, concluiu.
Espírito de luta e perseverança
Uma das fundadoras da Bamidelê, Solange Rocha é uma dessas mulheres que desafiou barreiras e venceu através da educação e do seu espírito de luta e perseverança. Ela não conquistou somente espaço na sociedade, mas seu trabalho de pesquisa nesta área lhe rendeu prêmios de reconhecimento nacional. Ela defendeu a tese de doutorado “Gente Negra na Paraíba Oitocentista: População, Família e Parentesco Espiritual” e recebeu o prêmio de melhor tese de 2007 do Brasil, na área de História, pela Associação Nacional de Professores de História. Ela lançará a tese em livro pela editora Unesc e o lançamento está programado para julho deste ano, em Fortaleza (CE), durante o Simpósio Nacional de História.
“Acredito que a mobilidade social no Brasil é possível através da educação formal. Ela é o caminho para a ascensão social e para minimizar as desigualdades sociais. Queremos que todas as pessoas tenham acesso à educação, inclusive os negros. Tenho orgulho de ser feminista e negra”, afirmou Solange Rocha, que foi pós-graduanda do Programa Internacional de Pós-graduação da Fundação Ford.
Paranaense radicada na Paraíba, Solange Rocha é mãe de Ana Dandara, 13 anos, que cursa o 8º ano (7ª série) e também é cheia de sonhos. “Meu sonho é cursar faculdade de Direito e atuar na área de perícia e fazer intercâmbio para o Canadá, para estudar”, revelou a garota, dona de uma beleza singular. Ela ainda frequentou um curso de modelo, mas disse que seu maior desejo é ingressar no ensino superior. “Não tenho jeito para desfilar”, encerra a jovem.
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