Por Ana Alakija*
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| Lincoln e Douglass: abolicionistas estadunidenses |
O filme de um dos mais consagrados diretores norte-americanos de cinema da atualidade – em apenas um mês em cartaz, já faturou em bilheteria quase o triplo do que investiu um 65 milhões de dólares. A obra chega ao público dos principais cinemas de pelo menos 55 países entre os meses de janeiro e fevereiro, carregando em torno de uma centena de prêmios, entre indicações e os láureos previamente auferidos e concorrendo a mais disputada premiação do mundo Hollywoodiano, o Oscar, indicado em mais de uma dezena de categorias, inclusive de melhor diretor, melhor filme do ano e melhor ator para Daniel Day-Lewis, as Lincoln.
Baseado no livro Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln (Equipe de rivais: A politica genial de Abraham Lincoln), da biógrafa norte-americana Doris Kearns Goodwin, Lincoln é vendido ao público como na publicação: enfatizando a notável capacidade do 16º presidente dos Estados Unidos, que, numa política incomum, reuniu adversários em cargos-chave para compor seu gabinete, com o objetivo de fazer passar no Congresso, políticas de seu interesse. No caso, a emenda constitucional que baniu a escravidão no país.
Além de um presidente da República portador de profundo sentimento de humanidade, essa “curta passagem” na história dos Estados Unidos é focada nos conflitos políticos envolvendo disputas entre os interesses do presidente, do seu gabinete, dos senadores, outros congressistas e governadores sobre a 13ª emenda. Lincoln respira os conflitos da escravidão tanto quanto a América respirou por mais de três séculos. A passagem da emenda constitucional em 1865 aconteceu durante os últimos suspiros da guerra civil entre os Estados do sul (que declararam separação da União) e os do norte, ambos os eventos em conseqüência desses conflitos.
A obra tinha tudo para ser perfeita, como a fama do seu criador. O desafio é: decifrar com que olhos o criador vê a sua criatura. Enfatizando o jeito de fazer política de um homem que era capaz de escutar e se colocar no lugar do outro, Spielberg esqueceu de escutar e de colocar a si próprio no lugar daqueles que tinham interesse direto na abolição da escravidão. Em quase duas horas de fita, o movimento ativista anti-escravagista é insignificantemente mostrado. Assim como é ignorada a existência de suas lideranças surgidas nas turbulentas décadas 1850-60. No máximo, o filme mostra uns gatos pingados, personagens anônimos não creditados nos letreiros, caracterizando “senhores negros bem vestidos” entrando na Casa Legislativa como se fosse a primeira vez, no dia da votação da emenda, tímidos e escoltados por senadores brancos abolicionistas e condescendentemente aplaudidos. Aos olhos de Spielberg, os afro-americanos de Lincoln parecem constituir uma massa homogênea oprimida não pensante, força bruta na guerra e passiva no processo decisório sobre o seu destino. Em consideração as suas memórias e das sucessoras gerações, como também à comunidade afro-descendente dispersa no mundo, a reconstituição dessa história merece melhor tratamento.
Pode ter sido um lapso de Tony Kushner, escolhido a dedo pelo próprio Spielberg, por fama de talentoso em canalização de vozes diversas e que tanto esmerou para obter um inglês vernacular perfeito de há um século e meio na América. Através do seu roteiro, tiveram vozes os atores David Oyelowo e Colman Domingo (como os soldados Ira Clarck e Harold Green), Gloria Reuben, (como Elizabeth Keckley, a modista ex-escrava e confidente da primeira dama Mary Lincoln e que se transformou em ativista, escritora e uma bem sucedida mulher de negócios em sua área após a abolição) e Stephen Henderson (que fez William Slade, o valete de Lincoln). Esses personagens “negros”, todos atores coadjuvantes (Keckley está indicada para a categoria de melhor elenco de suporte pela COFCA e Image Awards), são retratados como principais fontes de inspiração do espírito abolicionista do presidente Lincoln (como também seu piedoso filho Tad, de dez anos de idade). Semelhante à princesa Isabel, regente do Império brasileiro que assinou a Lei Áurea (em 1888) abolindo a escravidão no Brasil que já não servia aos interesses da coroa portuguesa, Lincoln em Lincoln termina bancando o papel de “redentor”.
Na vida real, foi Frederick Douglass o grande alimentador das idéias abolicionistas do presidente Abraham Lincoln. No original de Goodwin publicado em 2005 sobre o homem que ocupou a Casa Branca de 1860 a 1865, e que inspirou o filme, a autora (branca) admite que cada passo para a liberdade só foi possível através das lutas desempenhadas “pelos próprios negros, que pontuavam as questões em grande parte hostis ou indiferentes aos brancos”. Ela inicia a introdução citando que “em 1876, o célebre orador Frederick Douglass dedicou um monumento em Washington, erguido por afro-americanos a Abraham Lincoln”. O mais notável afro-americano do seu tempo, nascido em cativeiro e que se tornou um eloqüente orador e escritor é ainda citado em algumas dezenas das suas quase mil páginas, como líder abolicionista e importante colaborador do presidente.
A autora registra seus encontros com o presidente Lincoln, com quem ele compartilhava as suas idéias, tendo como fonte seus jornais, declarações e discursos publicados em livros de autoria do próprio Douglass, e em publicações de autoria de outros, para sustentar a sua narrativa. Outros líderes anti-escravagistas, a exemplo de John S. Rock e Anna Dickinson, são também citados no livro como membros da “delegação negra” recebida com Douglass pelo presidente da República ou membros do seu gabinete. Essa amizade incomum serviria bem a Lincoln se o propósito de Spielberg era mostrar a aquele homem que tinha uma alma humana. Contam os amigos de Douglas que, em certa ocasião, num desses encontros com o presidente, esse foi alertado por seu secretário duas vezes que o governador Buckingham de Connecticut – um dos mais leais e patriotas governadores – aguardava ser recebido; e o presidente pediu ao secretário para dizer ao governador que esperasse. De acordo com depoimento de Douglass, Lincoln foi o primeiro grande homem que ele conversou livremente nos EUA, sem lhe fazer lembrar da impopularidade da sua cor da pele.
A imprensa negra é também invisível no filme. A história desse jornalismo vibrante na época registra que senadores e outros congressistas liam os jornais de Douglass (em “Soldados sem espada”, documentário do cineasta afro-americano Stanley Nelson). Seus argumentos e ponderações influenciaram o curso da história. Como a formação de regimentos militares de “homens de cor” e com o mesmo salário de “soldados brancos”, que o próprio Douglass se encarregou de recrutar apoiando o presidente. E ele era um dos mais ferrenhos críticos, publicamente, do regime da escravidão, da política do governo e do próprio presidente Lincoln. Ele defendia o “Reconhecimento da Igualdade”, isto é, a liberdade com o direito do voto garantido. Mas ele também acreditava que a guerra civil era uma luta entre liberdade e escravidão e através da guerra se conquistaria a liberdade ao mesmo tempo em que se salvava o país.
Após à abolição da escravidão sucedida do assassinato de Lincoln e o término da guerra civil, Douglass continuou trabalhando pela Reconstrução junto aos presidentes sucessores. Lutou pela 14ª e 15ª emendas que providenciavam igualdade de proteção sob a lei e eliminavam a discriminação do voto por motivo racial.
Ainda que em diferentes contextos, realidades e destinos, Douglass está para a história dos Estados Unidos como Zumbi está para a história do Brasil. Zumbi (retratado no filme Quilombo, 1984, pelo diretor de cinema brasileiro Cacá Diegues) nasceu “livre” em 1655 no Quilombo dos Palmares – a maior (27 km2, 30 mil habitantes) e duradoura (de 1597 a 1695) comunidade livre formada por africanos escapados de fazendas de cana de açúcar prisões e senzalas existentes nos arredores, Zumbi nunca foi escravizado, mas foi capturado aos seis anos de idade para uma aldeia, onde aprendeu a ler e escrever Português com um padre católico; anos mais tarde voltou para o quilombo para se tornar o líder daquela comunidade. Ele foi morto em 1695 por tropas do Exército português, auxiliadas por escoteiros, e teve a sua cabeça decepada. Trezentos anos depois Zumbi foi reconhecido como herói nacional.
Nascido em cativeiro, em fevereiro de 1818, Frederick Douglass foi separado da sua mãe ainda quando criança. Acredita-se que seu pai era seu próprio e primeiro proprietário, nunca confirmado. Aprendeu a ler e a escrever escondido da família que deteve posteriormente a sua posse e nunca comprou a sua liberdade. Depois de algumas frustradas tentativas, conseguiu fugir aos vinte anos de idade do sul para o norte, com a ajuda daquela que viria a ser mais tarde a sua esposa, Anna Murray-Douglass – descendente de africanos, ela nasceu “livre” e fazia parte da underground railroad – rede de casas seguras estabelecida e usada no século 19 por africanos para escapar da escravidão para os estados livres e para o Canadá apoiada por abolicionistas e aliados à causa da liberdade. Douglass reiniciou sua vida como ativista em New York, estabelecendo-se depois em Massachusetts, e como jornalista, escrevendo para a imprensa abolicionista, O Liberator. Em 1845, sob ameaça de ser preso, com seu ex-proprietário requerendo a sua posse de volta, ele se exilou na Europa e estabeleceu o seu “quilombo” na Inglaterra, onde escreveu sua biografia e outros livros. Em 1847 volta aos Estados Unidos, funda o seu próprio jornal (The North Star) e mais adiante outros como forma de lutar pelo reconhecimento da igualdade civil entre os homens. Em 1888, na Convenção Nacional Republicana, Douglass foi o primeiro afro-americano a receber voto como candidato à presidência da República. Ele foi nomeado cônsul geral dos Estados Unidos no Haiti (1889–1891).
Deixando passar em branco a participação de afro-americanos, principalmente de Frederick Douglas no processo político que aprovou a emenda anti-escravidão faz parecer que Linlcon está na contra mão da história. Mais do que nunca as sociedades modernas convivem com a multiculturalidade e a multiracialidade como um aspecto característico do seu desenvolvimento. A terra de Spielberg é o melhor exemplo, tida como a maior potência do mundo e governado por um presidente de multíplice pedigree racial e cultural e que se identifica como afro-americano. Um parêntese: Diz-se que Barack Obama teria se espelhado no livro de Goodwin para montar o seu gabinete na sua primeira gestão, aproximando seus concorrentes de partido Joe Biden (como vice-presidente) e Hilary Clinton (como secretária de Estado). E que o seu gabinete eclético teria sido uma das estratégias de sucesso que culminou com a sua reeleição em 2012, na difícil missão de governar durante a maior crise enfrentada pelos Estados Unidos desde a grande depressão de 1930.
Por último, Lincoln também não faz qualquer conexão do olhar diferente com que o presidente via as coisas, com a sua possível herança atávica, por parte de sua mãe. Nancy Hanks-Lincoln era tida como descendente dos Melungeon – povos derivados de casamentos entre nativos de nações norte-americanas que habitavam o atual estado de Virginia, e migrantes europeus (turqueses, portugueses, espanhóis, árabes, colonizadores judeus, escravos e prisioneiros de origens desconhecidas). Os Melungeon teriam desaparecido ao longo do tempo, perdendo também a língua, a cultura, a religião. Lincoln, um descendente de minoria étnica, teria sido então o primeiro presidente da República dos EUA a quebrar com a tradição de presidentes de linhagem puramente européia. Carregando a origem humilde e o gene dos primeiros habitantes da América, ele trazia a luta pelo reconhecimento da igualdade entre os povos no seu próprio sangue, como missão.
Enfim, Lincoln parece ser a versão atual da supremacia branca desse período que o próprio filme retrata. E o mundo perplexamente está fadado a ver Spielberg glorificado e trazendo estátuas de Hollywood para a sua coleção por esta incorreção política. Paradoxalmente no mês que os EUA celebram as contribuições dos afro-americanos à história do país. A propósito, as primeiras celebrações sobre a herança afro-americana aconteceram em 1926 e fevereiro foi escolhido porque marca o aniversário de ambos, Abraham Lincoln (dia 12) e Frederick Douglass (dia desconhecido).
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(*) Ana Alakija é jornalista e editora do alaionline.

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