terça-feira, 9 de julho de 2013

Mulheres afroparaibanas*

por DALMO OLIVEIRA
 

 

            No próximo dia 24, no auditório principal do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, aqui em João Pessoa, vai ocorrer um evento alusivo ao Dia Internacional da Mulher Negra Afrolatino-americana e Caribenha. Na Paraíba, o movimento de mulheres negras vem celebrando o 25 de julho desde 1999, principalmente por iniciativa da ONG Bamidelê – Organização de Mulheres Negras da Paraíba.


            A data foi instituída em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. A partir daí, o movimento de mulheres negras tem atuado para dar visibilidade à data, mostrando as condições de opressão de gênero e raça vivenciada pelas mulheres negras latino-americanas e caribenhas.

            A diáspora africana atingiu sobremaneira o gênero feminino, especialmente pela secular tradição matriarcal desenvolvida no continente negro. Trazidas para o “novo mundo” escravizadas, as mulheres africanas se tornaram as principais vítimas de todo o processo escravista nas Américas e na região caribenha.

            A princípio tiveram suas vidas familiares destroçadas: filhas separadas dos pais, esposas desligadas dos maridos, mães arrancadas dos filhos. Afora todas as vicissitudes do racismo, a mulher afrodescendente acumulou na vivência da diáspora todas as formas de violência originadas pelo sexismo machista nas terras alheias.

            Na coletânea Seleta para Jovens de Gilberto Freire, o antropólogo pernambucano tem um capítulo com título sugestivo: “Feitiçaria no Brasil Colonial”. Ali ele retrata um pouco das estratégias de sobrevivência adotadas pelas mulheres negras escravizadas nos tempos coloniais: “(...) Como em Portugal a bruxaria, a feitiçaria no Brasil, depois de dominada pelo negro, continuou a girar em torno do motivo amoroso, de interesse de geração e de fecundidade; a proteger a vida da mulher grávida e da criança ameaçada por tantos males – febres, câimbras de sangue, mordedura de cobra, espinhela caída, mal-olhado. A mulher grávida passou a ser profilaticamente resguardada desses e de outros males por uma série de práticas em que às influências africanas misturaram-se, muitas vezes descaracterizados, traços de liturgia católica e sobrevivências de rituais indígenas”.

            Entre as pouquíssimas histórias da resistência negra na Paraíba há uma que se refere à escrava Leonor, fugitiva da Vila Real de Campina Grande e uma das fomentadoras locais da Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875).

            A pesquisadora do escravismo na Paraíba, historiadora Solange Rocha, da UFPB, dedicou parte de sua investigação de doutoramento para analisar as estratégias de manutenção das famílias descendentes dos escravizados. Rocha consegue mostrar, por evidências documentais daquela época, que, ao contrário do mito corrente de que ocorria certa promiscuidade entre os negros escravizados, que, mesmo com todas as adversidades proporcionadas pela situação escravagista, as famílias negras conseguiram manter estruturas parentais sólidas e perenes.

            Solange diz que em alguns casos as famílias negras tinham características monoparentais, em que o papel da mulher (mãe) era preponderante. A tese da historiadora lança por terra um velho ditado preconceituoso geralmente vinculado às mulheres negras escravizadas, que foi se transformando num tabu até na contemporaneidade: “pater incertus, mater certa”.

            Outro aspecto importante sobre a mulher negra paraibana foi relatado por ANDRADE (1997), no livro Capítulos de Geografia Agrária da Paraíba, em que a autora destaca: “(...) Na colheita da cana, cabia a cada negro cortar, por dia, trezentos e cinquenta feixes de 12 canas que eram amarrados por uma escrava (...)”, o que torna evidente a presença feminina negra em praticamente todos os espaços da produção dos engenhos açucareiros erguidos na Paraíba colonial.

            No Brasil o 25 de julho também foi instituído como Dia Nacional de Teresa de Benguela, homenageando a líder quilombola do século XVIII, do Quilombo Quariterê, em Mato Grosso. Teresa era considerada a Rainha Negra do Pantanal, ocupando o posto de chefia da estrutura político-administrativa, por ela criada.
 
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Texto publicado originalmente na coluna Elejó, no Jornal A UNIÂO, no dia 07/07/2013

 

 

 

 

 

 

 

 

           

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