No próximo dia 24, no auditório
principal do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, aqui em
João Pessoa, vai ocorrer um evento alusivo ao Dia Internacional da Mulher Negra
Afrolatino-americana e Caribenha. Na Paraíba, o movimento de mulheres negras vem
celebrando o 25 de julho desde 1999, principalmente por iniciativa da ONG
Bamidelê – Organização de Mulheres Negras da Paraíba.
A data foi instituída em 1992,
durante o I Encontro de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas, em
Santo Domingo, na República Dominicana. A partir daí, o movimento de mulheres
negras tem atuado para dar visibilidade à data, mostrando as condições de
opressão de gênero e raça vivenciada pelas mulheres negras latino-americanas e
caribenhas.
A diáspora africana atingiu
sobremaneira o gênero feminino, especialmente pela secular tradição matriarcal
desenvolvida no continente negro. Trazidas para o “novo mundo” escravizadas, as
mulheres africanas se tornaram as principais vítimas de todo o processo
escravista nas Américas e na região caribenha.
A princípio tiveram suas vidas
familiares destroçadas: filhas separadas dos pais, esposas desligadas dos
maridos, mães arrancadas dos filhos. Afora todas as vicissitudes do racismo, a
mulher afrodescendente acumulou na vivência da diáspora todas as formas de
violência originadas pelo sexismo machista nas terras alheias.
Na coletânea Seleta para Jovens
de Gilberto Freire, o antropólogo pernambucano tem um capítulo com título
sugestivo: “Feitiçaria no Brasil Colonial”. Ali ele retrata um pouco das
estratégias de sobrevivência adotadas pelas mulheres negras escravizadas nos
tempos coloniais: “(...) Como em Portugal a bruxaria, a feitiçaria no Brasil,
depois de dominada pelo negro, continuou a girar em torno do motivo amoroso, de
interesse de geração e de fecundidade; a proteger a vida da mulher grávida e da
criança ameaçada por tantos males – febres, câimbras de sangue, mordedura de
cobra, espinhela caída, mal-olhado. A mulher grávida passou a ser profilaticamente
resguardada desses e de outros males por uma série de práticas em que às
influências africanas misturaram-se, muitas vezes descaracterizados, traços de
liturgia católica e sobrevivências de rituais indígenas”.
Entre as pouquíssimas histórias da
resistência negra na Paraíba há uma que se refere à escrava Leonor, fugitiva da
Vila Real de Campina Grande e uma das fomentadoras locais da Revolta do Quebra-Quilos
(1874-1875).
A pesquisadora do escravismo na
Paraíba, historiadora Solange Rocha, da UFPB, dedicou parte de sua investigação
de doutoramento para analisar as estratégias de manutenção das famílias descendentes
dos escravizados. Rocha consegue mostrar, por evidências documentais daquela
época, que, ao contrário do mito corrente de que ocorria certa promiscuidade
entre os negros escravizados, que, mesmo com todas as adversidades
proporcionadas pela situação escravagista, as famílias negras conseguiram
manter estruturas parentais sólidas e perenes.
Solange diz que em alguns casos as
famílias negras tinham características monoparentais, em que o papel da mulher
(mãe) era preponderante. A tese da historiadora lança por terra um velho ditado
preconceituoso geralmente vinculado às mulheres negras escravizadas, que foi se
transformando num tabu até na contemporaneidade: “pater incertus, mater
certa”.
Outro aspecto importante sobre a
mulher negra paraibana foi relatado por ANDRADE (1997), no livro Capítulos de Geografia Agrária da Paraíba, em
que a autora destaca: “(...) Na colheita da cana, cabia a cada negro cortar,
por dia, trezentos e cinquenta feixes de 12 canas que eram amarrados por uma
escrava (...)”, o que torna evidente a presença feminina negra em praticamente
todos os espaços da produção dos engenhos açucareiros erguidos na Paraíba
colonial.
No Brasil o 25 de julho também foi
instituído como Dia Nacional de Teresa de Benguela, homenageando a líder
quilombola do século XVIII, do Quilombo Quariterê, em Mato Grosso. Teresa era
considerada a Rainha Negra do Pantanal, ocupando o posto de chefia da estrutura
político-administrativa, por ela criada.
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Texto publicado originalmente na coluna Elejó, no Jornal A UNIÂO, no dia 07/07/2013
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