terça-feira, 9 de julho de 2013

Sem reparação não há democracia nem desenvolvimento*

por DALMO OLIVEIRA

            O conceito de reparação ainda não foi suficientemente introjectado na reflexão daqueles e daquelas que há anos reivindicam políticas públicas para a promoção da igualdade racial, especialmente aqui na nossa amorenada Paraíba. Tem a ver com a necessidade histórica imposta às populações afrodescendentes que coloca quase 60% da população paraibana à margem dos processos produtivos inclusivos, de cidadania plena, de equidade de oportunidades e direitos.


            O conceito de reparação surge na modernidade após o fim da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, em 1865, quando aquele país iniciou um grande esforço  de reconstrução  da  sociedade,  em que os negros reivindicavam integração social  como cidadãos  livres.

            O presidente Abraham Lincoln, assassinado logo após o fim da guerra civil americana, tinha também o desejo de acabar com o latifúndio e deixou pronto um programa de política pública chamado de “40  acres  de  terra  e  uma  mula”,  que  viabilizaria o surgimento de minifúndios,  para  garantir  a  produção  dos  recém-libertos. Mas os historiadores garantem que tal lei nunca foi implementada, e os negros da América continuaram sem  terras  e  com  salários  baixíssimos, trabalhando nos latifúndios de antigos patrões como meeiros.

            No Brasil a abolição da escravatura foi oficializada, mas nenhum mecanismo legal foi criado pelo Congresso que garantisse algum tipo de indenização às famílias tornadas escravas. Os ex-escravos foram lançados à “liberdade” da mesma maneira que desembarcaram nas nossas praias: apenas com as roupas dos corpos e o pouco que conseguiram durante o julgo escravista.

            Por outro lado, nos anos seguintes, milhares de famílias italianas, alemães, espanholas e japonesas migraram para o Brasil e foram beneficiadas com incentivos governamentais e até hectares de terras. Quem não ouviu falar nas colônias de imigrantes europeus que Dom Pedro II fomentou no sudeste e sul do país. Por que hoje vários municípios naquelas regiões são dominados por eurodescendentes que jamais se miscigenaram? Lugares onde a língua portuguesa falada no Brasil é secundária.

            Mas para os milhões de africanos trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil não houve, até hoje, nenhuma condescendência. Além da violência extrema que sofreram, jamais lhes foi dado algo que pudéssemos chamar de “recompensa”. Atualmente, as poucas políticas públicas que favorecem a população negra do Brasil são cotidianamente contestadas pelas elites mesquinhas, pelos setores da direita mais reacionária.

            As cotas nas universidades públicas não são reparação. A demarcação de terras das comunidades quilombolas não é reparação. São direitos negados secularmente ao nosso povo. Reparação seria devolver a esses cidadãos recursos mínimos que lhes foram abruptamente tirados quando da escravização. Estamos falando em moradia, em recursos financeiros expropriados.

            A reparação racial que precisa ser feita no Brasil é a condição inicial para se pensar num país mais justo, mais democrático, mais igualitário. Pensar em desenvolvimento social e econômico no Brasil sem incluir o quesito reparatório é pensar o país como se não tivesse existido Brasil entre 13 de maio de 1888 e 1500.

            Por tanto, nas conferências de promoção da igualdade racial que faremos esse ano na Paraíba incluiremos a discussão da reparação, entendendo que, no entanto, um tipo de reparação esse país nunca terá condições de oferecer aos afrodescendentes brasileiros: a reparação moral. Pois não há como reparar os danos morais causados pelas humilhações que nossos antepassados passaram nas senzalas.

            Não tem como reparar as dores físicas e da alma provocadas pelos açoites. A vergonha da exposição pública dos acorrentados. A degradação dos estupros. Não se pode reparar a proibição imposta aos cultos religiosos trazidos de África e a violência cognitiva imposta pelo catolicismo forçado da conversão ao cristianismo. Nada disso pode ser mensurado financeiramente, mas aconteceu.
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Texto publicado originalmente no Jornal A União no dia 30/06/2013.

 

           

 

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