A diáspora africana espalhou a força da mulher negra pelo mundo. Mas é nas Américas e na região caribenha onde a presença negra feminina fez florir, da forma mais diversa, a riqueza humanitária das mulheres negras.
Desde 1992 que o dia 25 de julho se tornou uma data que passaria a marcar a luta e a resistência das mulheres negras contra o racismo e exploração histórica que vivenciavam em mais de 70 países latino – americanos e do Caribe. A data serve para visibilizarmos nossas especificidades e revelar a opressão as quais estamos submetidas pela ação do racismo, do sexismo, e da luta de classes.
| Verônica Lourenço e Tânia Corrêia (Fotos: Andrea Gisele) |
- Elevada taxa de mortalidade materna pela falta de tratamento adequado no pré-natal;
- Inexistência ou inaplicabilidade de Programas de Saúde para atendimento das mulheres negras, principalmente nas doenças cardiovasculares, anemia facilforme, hipertensão, doenças crônico-degenerativas, diabetes mellitus, depressão e alcoolismo;
- Salários aviltantes e sempre menores que de homens e mulheres brancas, e homens negros;
- Principais vitimas de violência doméstica e sexual, e também do trafico de pessoas;
-Baixa representatividade nos cargos gerenciais nas empresas privadas, nos espaços políticos, no judiciário e no executivo;
- Altas taxas de gravidez precoce, DST/AIDS e doenças sexualmente transmitidas.
Mas ainda assim é um dia pra se comemorar, então... “Que se rufem os tambores e atabaques” porque nós mulheres negras resistimos a todas as tentativas de extermínio da nossa cultura, religião, identidade e autoestima e pasmem, continuamos aqui. Na luta para fazermos um mundo melhor e mais digno.
O que eu poderia dizer deste dia? Ainda falta muito para que a vida fique “azul, preta, amarela, etc.” para nós mulheres negras e para o povo negro de maneira geral. Obstáculos que precisam ser vencidos, como: a concretização das políticas de cotas; a lei que prevê a inclusão do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas (que ainda é um mito); a lei 7.716 que ainda não pune rigorosamente os crimes de discriminação racial; a lei 3.198 (Estatuto racial) que continua no papel. Se todas essas leis estivessem operando, sob os rigores com que foram criadas, a vida para o povo negro estariam em condições bem mais dignas.
| Lourenço é ativista no movimento de mulheres e Fátima Solange é especialista em Educação |
Dentro de todo esse contexto abordado, nós mulheres negras desempenhamos um papel fundamental; não só pela guarda e transmissão do conhecimento da nossa história, como também do conhecimento e da cura através do nosso sagrado. Na história está documentada a visão do povo negro, pela ótica do opressor.
À mulher negra restou a tarefa de guardar todas essas marcas pela força da memória; seja individual ou coletiva da nossa história e que tem sido preservada, atualizada e transmitida de geração em geração. Como herdamos a tradição oral dos nossos ancestrais africanos, nos habituamos a contarmos nossa história nas rodas, na cama para nossas filhas e filhos, nos lugares onde moramos etc.
E assim será. Enquanto a sociedade que nos oprime e teima em nos tornar invisíveis não reconhecer e nem respeitar nossa história de luta, estaremos aqui para denunciar, protestar e dizer da nossa indignação. Não pretendemos ser mais nem melhores que quaisquer outras mulheres. Queremos respeito! Queremos puder exercer a nossa identidade, nossa religião afro, nossa cultura, nosso jeito particular de sermos mulheres negras.
| Mariah Marques atua na cultura e na religião |
Espero que daqui haja mais algum tempo, nós possamos escrever e contar que dias melhores finalmente chegaram. E que enfim a sociedade reconheceu o valor e a importância que nós mulheres negras desempenhamos neste país para o qual fomos trazidas forçosamente e ainda assim fomos capazes de mesmo com toda tentativa por parte dos dominadores de nos branquear e nos exterminar, sobrevivemos e estamos aqui para contar nossa história.
AXÉ DE POVO NEGRO!
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* Texto produzido por Tânia Maria da Silva Correia e Fátima Solange Cavalcante, mulheres negras paraibanas ativistas do FOPPIR

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