terça-feira, 10 de julho de 2012

Ailton Ferreira mostra sua experiência da SEMUR para ativistas paraibanos


Ferreira: humanismo e humildade (Fotos: Fabiana Veloso)

Durante três dias o secretário da Reparação de Salvador, Ailton Ferreira, realizou em João Pessoa uma série de reuniões com diversos segmentos do movimento social negro da capital paraibana. Ele veio à cidade a convite do jornalista Dalmo Oliveira, membro do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (CEPIR) e do Fórum Paraibano  de Promoção da Igualdade Racial (FOPPIR).



Petistas pessoenses ouviram experiências da SEMUR
Na sexta-feira, 6, a partir das 16 horas, Ferreira participou de uma roda de diálogos com militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), no auditório do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação do Município (SINTEM), onde falou da experiência da Secretaria Municipal da Reparação (SEMUR). Entre as pessoas da platéia estavam o deputado Luciano Cartaxo, candidato à Prefeitura de João Pessoa, Rodrigo Soares, presidente estadual do PT, e os candidatos a vereador da legenda, Idevaldo Barbosa e José Neto.

De forma simples e didática Ailton mostrou aos presentes porque Salvador decidiu criar a SEMUR. Ele disse que depois que ocorreu a terceira conferência contra o racismo e xenofobia de Durban o Brasil assumiu compromisso de criar políticas públicas de reparação para as populações descendentes dos africanos escravizados.

Em Salvador, a secretaria foi criada em 2003. Ailton fez questão de destacar que a secretaria foi criada pela luta dos movimentos sociais, e começou explicando sobre a diferenciação entre a cidadania dos que vieram para o Brasil para mandar e aqueles que foram trazidos para obedecer. “No Brasil havia uma ideia de que existem gente de primeira e gente de segunda categoria, como se fosse um açogue onde se vende carne de primeira e de segunda, mas nós somos gente, não somos carne e Deus fez todo mundo de primeira. Essa hierarquia, essa separação, essa inferioridade e superioridade entre as pessoas está na nossa matriz cognitiva”, diz o sociólogo.

O secretário deu uma verdadeira aula de história do Brasil
O gestor soteropolitano lembrou que a escravização no Brasil terminou por conta das pressões econômicas internacionais e que a Lei Áurea só possuia dois artigos: 1) Está abolida a escravidão e 2) estão revogadas as disposições em contrário. “Não foi feito nenhum pacto social para ressarcir os negros escravizados. Nós não tivemos um acordo pós-escratura. Quando os italianos foram chamados pelo governo Vargas para industrializar o Brasil, eles vieram com cotas, com insentivos, com emprego, com terreno, com casas. Mas para os ex-escravizados não ofereceram nada”, destaca Ferreira. 

Ele falou da questão das prioridades na saúde. “O país é bam-bam-bam em cirurgia plástica, mas não tem tratamento para a anemia falciforme. Nós hierarquizamos o atendimento. Então que tipo de priorização é essa?”, pergunta. “Não é normal negros serem mal tratados. Nós queremos passar o país a limpo. Zerando o jogo”, diz.

Ativistas negros paraibanos interagiram com o secretário
Ailton Ferreira diz que é preciso que a secretaria tenha a capacidade institucional de se articular com as demais secretarias do governo municipal. “É importante que a secretaria não queira resolver tudo. Nem vai resolver. E que a população entenda isso. O prefeito tem que entender que, criando a secretaria de promoção da igualdade racial, estará atendendo as metas do milênio, e o BIRD está olhando para nós, e as agências internacionais estão observando. Ele precisa perceber que com a adoção dessa iniciativa ele estará colocando sua cidade estrategicamente competitiva num mundo globalizado, com a marca da equidade”, recomenda. 

Em 2009, o orçamento da SEMUR foi de R$ 1 milhão 250 mil. Já em 2010, passou para R$ 2 milhões e 600 mil. No ano seguinte o orçamento da SEMUR superou os R$ 4 milhões, com recursos do Tesouro Municipal. Além disso, a Prefeitura de Salvador recebe recursos federais para bolsas aos estudantes cotistas nas universidades.

Ele lembrou que a população negra é hoje cerca de 52% da população nacional. Na Paraíba essa percentagem é ainda maior. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD,2007) demonstra que na Paraíba 58,9% dos seus habitantes são pardos; 37,5% brancos; 3,4% pretos e 0,2% amarelos ou indígenas.
O deputado Luciano Cartaxo disse que o modelo
 de Salvador deve ser adotado em João Pessoa

“Essa secretaria é fundamental nesse momento. Queremos que ela tenha exatamente essa função de articuladora com as demais secretarias, para que todo o governo faça o combate ao racismo e compreenda a importância das políticas públicas para promoção da igualdade racial”, comentou o deputado Luciano Cartaxo, após a explanação do convidado.





ATIVISMO E PROTAGONISMO NEGROS

No sábado, 7, Ailton Ferreira participou de reuniões com ativistas do movimento negro paraibano. Na parte da manhã ele dialogou com lideranças de religiões da matriz africana, representantes da Pastoral Afro, mulheres negras e de pessoas com doença falciforme.

O secretário Ailton Ferreira teve uma agenda intensa em João Pessoa
Uma das discussões aprofundadas com os militantes foi a questão da necessidade de se promover em João Pessoa encontros para o diálogo inter-religioso, entre sacerdotes das religiões de matriz africana, com líderes cristãos, católicos, budistas etc. 

À tarde, o gestor baiano concedeu entrevista ao programa radiofônico Alô Comunidade, na Rádio Tabajara AM, onde pode responder perguntas dos ouvintes sobre a questão das cotas raciais nas universidades entre outros temas.

No domingo, 8, o secretário visitou os terreiros Ilé Axé Omidewá, no Valentina Figueiredo e de Mãe Chaguinha, em Mangabeira, onde pode conhecer mais de perto as comunidades tradicionais da cidade. Em Mangabeira, Ferreira fez reunião com militantes da capoeira e da religião, discutindo temas mais políticos como democratização da comunicação, saúde da população negra e tradições afro-brasileiras.
A visita do gestor soteropolitano abriu portas para um
intercâmbio mais perene entre baianos e paraibanos




Nenhum comentário: