Ana Alakija[1]
Desde o último 25 de maio, Dia da África, o Brasil tem uma nova bandeira: o país do verde e amarelo e agora também vermelho - as três cores de identidade visual da cultura de matriz africana notadamente na Bahia - participa como convidado de honra do III Festival Mundial de Artes Negras, que acontece de 1 a 14 de dezembro, em Dakar. O Fesman foi lançado em Salvador pelos presidentes Abdoulaye Wade, do Senegal, e Lula da Silva, do Brasil, país responsável também por articular outros países da America Latina e da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP).
Concebido numa dimensão cultural e científica para que as genialidades negras possam expressar todas as suas formas de criação, o Fesman não é “apenas” um festival de arte. “A arte é essencialmente negra, como dizia Picasso, e junto com a ciência, contribuirá para reflexão e formação de consciência”, diz o interlocutor da nação anfitriã com os 80 países que participarão do evento, oministro da Cultura do Senegal, Mame Birame Diouf.. “Essa é uma parte importante da nossa história que precisamos aprender e o Fesman vai dar oportunidade a nossos filhos, netos e a nós mesmo de fazermos a melhor conexão com a história da África”,
Com o tema A Renascença Africana, o evento retoma os ideais de negritude do intelectual e socialista Léopold Senghor, presidente do Senegal através de sucessivas eleições (1960-80), época em que o festival foi concebido e o primeiro realizado (Dakar, 1966). A proposta tem fundamento nas resoluções do I Congresso de Negros realizado em Londres (1908), quando iniciaram discussõesna Europa, no norte da América e na África sobre o controle colonial e estratégias para a libertação da idéia universal que ainda hoje persiste em considerar o povo negro como sem cultura, incapaz de raciocinar e que jamais tomou parte na historia importante da humanidade.
Para o interlocutor, os preconceitos estão na base da inversão da história, considerando estar cientificamente provado que a África é o berço da humanidade. Ele admite que essa mentalidade vem se modificando, sobretudo na América Latina e também por parte daqueles que sobreviveram a mais de um século de colonização tendo que ignorar a sua história para aprender a história do outro. E que mesmo assim tiveram a capacidade de desenvolver a cultura do renascimento, gerando gênios como Du Bois (pai do pan-africanismo), Luther King, Pelé e o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “o maior fruto de visibilidade da civilização afro-americana”. Este é um dos argumentos para o Fesman.
O festival é ainda parte do projeto de criação dos Estados Unidos da África, sustentado pela União Africana - organização fundada em 2002 em substituição a ex-OEA e baseada no modelo da União Européia, com atuação mais parecida com o regime inglês Commonwealth, no Reino Unido, em que as nações são independentes, mas atuam em associação por propósitos comuns. Os africanos acreditam que somente uma força econômica e política de âmbito continental pode tornar a África competitiva. A UA tem o apoio de 28 países da Europa e vem fazendo esforço para mudar a imagem de alienação e perversão cultural da África, reproduzida através da imprensa, com filmes pornográficos, sobre violência, miséria e fome, subjugando a diversidade própria. O presidente Wade, inclusive, é um dos ganhadores de prêmio internacional pelo combate à pedofilia, recebido este ano pelo presidente Lula.
Os senegaleses expressam ainda a vontade de que o Brasil, a mais significativa diáspora africana, venha sediar o próximo Fesman, em 2020. Salvador é a capital natural da 6ª região da África - o continente é dividido em 5 regiões e considera a diáspora como a 6ª - concentrando mais de 80% da população de ascendência e fenótipo africano e genialidades negras que nem a ditadura militar na época de realização do segundo festival (Lagos, Nigéria, 1977), conseguiu relegar em sua delegação oficial. A exemplo do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, que ocupa hoje o lugar de honra no Fesman equivalente ao concedido no passado ao ilustre médico-psiquiatra George Alakija, descendente direto de nobres Yorubas, como vice-presidente da zona América do Sul.
[1] Ana Alakija é jornalista e coordenadora do Programa de Intercâmbio de Informação da Agência Afro-Latina e Euro-Americana de Informação. Contatos: www.alaionline.org e alaionline@alaionline.org
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